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Não íamos fazer esse ensaio agora. Queríamos pensar e amadurecer a ideia em busca de algo mais aperfeiçoado. Todavia, nos demos conta de que não precisamos esperar a vida inteira, pois a ideia de perfeição muitas vezes mais atrapalha do que ajuda e, além de tudo, é um ideal que não existe de fato. Assim, percebemos que o momento é o agora, este instante que passa e que nunca retornará. Dito isso, vamos esboçando que este ensaio tem uma parte de sua raiz submersa no acaso e outra parte submersa em uma ideia mais amadurecida. Mas, apesar dessa aparente dualidade entre acaso e elaboração, permanece o todo como fruto de nossa caminhada, de nosso olhar lançado a vida... ao sermos com o existente. Algumas das fotos foram tiradas em momentos diversos e sem uma intenção programática, outras já foram feitas com esse olhar que agora tentamos resolver. Com o passar do tempo, fomos chegando à conclusão de que um dos movimentos mais importantes a nossa existência seria o gesto de estender a mão quando o outro nos lança um um olhar solicitando acolhimento. Ou seja, tentar sair da atitude centrada no “eu”, no ego, e procurar não apenas pensar, mas ser com (empatia). E lançar uma ponte para a inclusão do outro num “nós” não apenas mais saudável, mas também mais pleno... Assim fomos pensando como poderíamos fazer algo levando em consideração nossas limitações e o que tínhamos em mãos para ofertar. E, aos poucos, foi amadurecendo a ideia de tentar mostrar, para além da busca pelo maravilhoso, que há beleza na simplicidade, que há beleza no dia a dia. ... Nesse sentido, não há nada mais simples do que o surgir de um dia qualquer e os vislumbres do sol nas águas do mar, árvores que encontramos ao acaso e objetos do nosso cotidiano: um tapete de chão, o fundo de uma caneca, o fundo de uma pia, um armador enferrujado etc. Fomos permeados igualmente por três noções advindas da movimentação da natureza: a impermanência (nada dura, nem nós), a imperfeição (nada é perfeito) e a incompletude (nada está acabado, tudo é processo). Para essa amostra tentamos trabalhar, ou editar, as imagens o menos possível. Assim como também, para o que aqui temos em mente, o mais importante seria a ideia e não a técnica, o simples e não o sofisticado. Logo, quase todas as imagens foram feitas de forma artesanal. Enfim, o que tentamos ir sentindo aqui é que tudo está na forma como olhamos a vida, as circunstâncias, as coisas e os seres. Se lançarmos um outro olhar sobre a existência, podemos ver beleza nas coisas mais cotidianas, uma beleza que de fato as coisas têm. Há beleza na simplicidade, nas marcas da passagem do tempo e em muita coisa que, por estarmos imersos no dia a dia, não conseguimos perceber. Assim.… uma coisa simples, e que fazemos diariamente, pode adquirir um outro sentido quando tentamos perceber de um outro ponto de vista e com um olhar mais aberto. Com esse olhar seria possível vivenciar, por exemplo, a beleza e o prazer de se beber um simples copo com água. A importância de todo esse movimento pode ser compreendido tendo em mente duas palavras: gratuidade e utilidade. Elas são complementares, ao que parece, uma não pode viver sem a outra, mas talvez em nossa cultura estejamos focando, mais que tudo, na utilidade. Nesse movimento, tudo só serve para. As coisas, e o que é mais triste, as pessoas, se tornam instrumentos para algum fim, se tornam instrumentos para obter alguma outra coisa... E assim vamos perdendo a beleza de um gesto genuinamente belo e vago de intenções. E o impalpável e o transcendente (que não podem ser tocados, como um sorriso por exemplo), se vão ao vento...
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